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O gol na tela colorida (originalmente publicado na Coletânea Gol de Copa edição 2023 da editora Campo ou Bola)

 O gol na tela colorida


Julho de 1994, interior da região amazônica. Uma casa de alvenaria com antena parabólica, uma menina de 10 anos e a televisão do “Sr. Levi” (única colorida sem chuvisco e grande) do lugar. A ele também pertencia a serraria de extração de madeira, a fábrica de cabo de vassouras, a padaria, o supermercado e o açougue que abastecia a vila dos trabalhadores da fábrica, às margens da rodovia Br 0-10.

— Carmela, leva as crianças lá em casa no domingo  para ver o jogo final da copa? veio o convite do sr. Levi. Os olhos da menina curiosa que ouviu a conversa da mãe, enquanto desciam a rampa da igreja ao final do culto sabático, se arregalaram e voltaram-se para sua mãe como se pudessem gritar: DIZ QUE SIM!  TV era algo que não existia em sua casa, assim como em outras da vila de madeira em que morava junto com o pai, a mãe e dois irmãos. Um ou outro vizinho da vila possuía uma pequena tv preto e branco. As tvs possuíam imagem chuviscada devido a antena. Eram feitas geralmente com tampa de panela de alumínio, fixada na ponta de uma comprida vara de madeira, conectada ao aparelho por um fio de arame. 

Se estivesse ventando, alguém precisava ficar movimentando a vara de um lado para outro, a fim de que pudesse aparecer imagem e som na TV. Só pegava 1 canal e com chuvisco. Todos os outros jogos da copa foram vistos através da TV do sr. Vicente, que embora em preto e branco, não chuviscava. Mostrava com clareza e nitidez todos os lances dos jogos. Dava para ver a plateia e  os jogadores, mas não era colorida, não como a do sr. Levi.

 A menina namorava na grande TV colorida do vizinho. E como felicidade clandestina gostava de ir, escondido de sua mãe, através das ripas da cerca, que dividia o quintal de sua casa. A fim de olhar pela janela da sala do vizinho, e que dava certinho para a grande TV colorida sem chuviscos na tela. Quando os filhos do dono não fechavam a janela, ao notar que a menina estava se deliciando com as imagens e sons, aquela felicidade transbordava. E agora estava ali, diante da oportunidade de ser convidada para ficar de frente daquela grande tela? Sua mãe não podia dizer  que não. 

O narrador anunciou o início da partida. A menina procurou se acomodar bem de frente da  grande tela colorida e ficou olhando como que para um grande céu, afinal sua mãe disse sim. Os jogadores entraram vestidos com a amarelinha e aquele amarelo tornou-se dourado no reflexo dos olhos da menina que emocionada via pela primeira vez uma final de copa do mundo e por cima, uma tela colorida. 

Veio o apito inicial e a bola rolou. O grito de “GOL!!!” Já havia ensaiado a semana inteira e estava pronto para sair com toda a potência dos pulmões juvenil. Era o assunto na escola, nos fins de culto, nas ruas, e nas casas enfeitadas por bandeirolas verde e amarelo. Tudo parecia lembrar uma grande festa de canários. O Brasil seria tetracampeão mundial de futebol. O pai da menina havia lhe dito que nenhum outro país tinha conseguido isso. Todos pareciam alegres e felizes com a expectativa de alguma coisa muito boa acontecer.

Foram 90 minutos de aflição e sem grito de gol. Depois de mais 30 minutos na prorrogação, o jogo terminou empatado por 0 a 0. E algo inédito parecia acontecer. Seria a primeira final de Copa do Mundo decidida nos pênaltis! Aquele grito de “gol” que já apertava no gogó parecia mais incomodado ainda para sair! Uma pausa para decidir  quem do time bateria os pênaltis, falatório de adultos, início das cobranças, e o primeiro erro deles veio, e nosso também. Que aflição, meu Deus! A menina conheceu ali os primeiros sintomas do que carregaria para sempre na vida, a ansiedade. Não aguentou, resolveu sair dali porque a vontade de ir ao banheiro em meio ao nervosismo se apresentou ali pela primeira vez. 

Não podia demorar. Havia um grito guardado no peito e não poderia perder a chance de o lançar com toda a força que o trazia guardado no peito, e não era de hoje. Romário foi para o 2º pênalti. Ele partiu para  a cobrança o grito majestoso veio, GOLLL!!! mas não sem uma dose de apreensão, por saber que ainda faltava muito a percorrer.  A vinheta do “Brasil uiu uiu uiu uiu!!!!!!!!”  veio, e depois, gritos, e palmas, e alegria e fogos e festa!! mas ainda não era suficiente. O pai da menina lhe explicou que só gol não traria o título de campeão, e  mais do que gritar por gol, tinha que gritar “VAI QUE É TUA, TAFAREL!”

 E a última cobrança deles, a que decidiu o jogo, foi autorizada. Todos gritaram VAI QUE É TUA TAFAREL!!! mas não foi preciso. O adversário errou!! Ele errou! O narrador começou a gritar loucamente que o Brasil era tetra! tetra! tetra! TETRACAMPEÃO MUNDIAL! Todos os presentes se abraçaram! na rua, ensandecidos soltavam fogos. O peito que apertado esperava o momento do gol, passou a arder com as palavras de tetra, tetra campeão que ecoavam em seus ouvidos e permaneceram até pegar no sono. Cansada foi dormir  feliz por ser tetra campeã de alguma coisa e por ter visto tudo de perto da grande TV colorida sem chuvisco na tela.


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