O gol na tela colorida Julho de 1994, interior da região amazônica. Uma casa de alvenaria com antena parabólica, uma menina de 10 anos e a televisão do “Sr. Levi” (única colorida sem chuvisco e grande) do lugar. A ele também pertencia a serraria de extração de madeira, a fábrica de cabo de vassouras, a padaria, o supermercado e o açougue que abastecia a vila dos trabalhadores da fábrica, às margens da rodovia Br 0-10. — Carmela, leva as crianças lá em casa no domingo para ver o jogo final da copa? veio o convite do sr. Levi. Os olhos da menina curiosa que ouviu a conversa da mãe, enquanto desciam a rampa da igreja ao final do culto sabático, se arregalaram e voltaram-se para sua mãe como se pudessem gritar: DIZ QUE SIM! TV era algo que não existia em sua casa, assim como em outras da vila de madeira em que morava junto com o pai, a mãe e dois irmãos. Um ou outro vizinho da vila possuía uma pequena tv preto e branco. As tvs possuíam imagem chuviscada devido a antena. E...
O céu está caindo ( originalmente publicado na coletânea Elas Poetas - edição 2024 da editora Vira-tempo)
O céu está caindo Curumim sai de bota porque está na moda O Pataxó de Paletó pega a rede de pesca e cai no igapó Mais uma manhã normal na oca digital Acordada pelo despertador colonial A tradição milenar é oral Está tudo registrado na câmera digital o Xamã anuncia a chuva no grupo do zap “Filhos da Lua” “É o céu caindo em nossas cabeças” anuncia a velha anciã Velha anciã, sim! Grita! Nunca anciã velha! rebate a velha: “Nossos velhos são bibliotecas vivas memória ancestral de instrução pra vida” respeitar, valorizar, ouvir, amar os velhos É tecnologia de futuro velho é o mundo… “QUE ESTÁ CAINDO EM NOSSAS CABEÇAS!” grita de novo É a voz milenar…